Uma denúncia formal apresentada à Câmara Municipal de Caldas Novas e ao Ministério Público colocou no centro de uma grave investigação o vereador Hudson Matheus de Paula Pires, acusado de exigir pagamento de propina no valor de R$ 20 mil para viabilizar a liberação do alvará de funcionamento de um trenzinho turístico no município.
A denúncia foi apresentada pelo empresário Ivair Clemente Gomes, proprietário do “Trenzinho da Alegria”, por meio de seu advogado, Rannieri Lopes, que protocolou representação criminal na 5ª Promotoria de Justiça da Comarca de Caldas Novas. Segundo a defesa, o caso teve início após a Prefeitura publicar um edital para credenciamento de trenzinhos turísticos. Ivair afirma ter cumprido todas as exigências legais, mas, mesmo assim, teria sido procurado pelo vereador, que condicionou a liberação da vaga ao pagamento da quantia exigida.
De acordo com o advogado, o empresário foi conduzido até o gabinete do parlamentar, onde teria ouvido que somente conseguiria a autorização mediante o pagamento de R$ 20 mil. Parte do valor teria sido repassada por meio de transferência via Pix, realizada em nome de Victor, apontado como assessor do vereador, e outra parte por meio de um cheque calção emitido pela esposa de Ivair, Maria José.
Áudios anexados à denúncia reforçam a acusação. Em uma das gravações, atribuídas ao vereador, Hudson Matheus afirma ter influência suficiente para inserir documentos “em qualquer pasta da prefeitura”, sugerindo interferência direta em procedimentos internos do Executivo municipal. Em outro trecho, ele garante que devolveria o valor caso a liberação não ocorresse. “Se eu não liberar, devolvo os R$ 20 mil”, diz o parlamentar no áudio. Há ainda gravações em que o vereador afirma conhecer pessoas capazes de falsificar assinaturas e diz possuir documentos com assinaturas falsas.
Segundo a defesa, o cheque não foi devolvido ao casal, o que resultou em mais um imbróglio jurídico, já que o título acabou sendo judicializado contra a esposa do empresário. Uma notificação extrajudicial foi encaminhada ao vereador, concedendo prazo de 48 horas para solução do problema, mas não houve resposta.
Após a formalização da denúncia, Ivair também registrou nova ocorrência na Polícia Civil, relatando que teria sido ameaçado pelo vereador, que, segundo ele, compareceu ao local onde o trenzinho opera acompanhado de outras três pessoas. O advogado sustenta que os fatos caracterizam corrupção passiva, uma vez que o pagamento não teria sido oferecido espontaneamente, mas exigido por um agente público, além de possível apropriação indébita pela retenção do cheque.
Paralelamente à apuração criminal, o caso chegou à Câmara Municipal de Caldas Novas, que se manifestou oficialmente por meio do Despacho nº 004/2026, datado de 22 de janeiro de 2026. No documento, o Legislativo determinou o envio de cópia do parecer jurídico tanto ao denunciante quanto ao denunciado, garantindo ciência às partes envolvidas. O despacho também estabelece que o denunciante comprove, no prazo de 48 horas, sua condição de cidadão e eleitor do município, requisito previsto no regimento interno para a legitimidade da denúncia.
Superadas as exigências formais, a Câmara determinou o início dos procedimentos da Comissão Processante, nos termos do artigo 100 e seguintes do Regimento Interno da Casa, em conformidade com a Resolução nº 004/2024.
Até o momento, não há informação oficial sobre eventual afastamento do vereador, nem manifestação pública de Hudson Matheus sobre as acusações. A reportagem tentou contato com o parlamentar, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para manifestação.
O caso segue em tramitação no âmbito do Legislativo municipal, além de estar sob apuração do Ministério Público e da Polícia Civil, podendo evoluir para a abertura de processo político-administrativo e responsabilização criminal, conforme o andamento das investigações e o cumprimento dos requisitos legais e regimentais.